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Home»Tecnologia»Google consegue executar inteligência artificial no espaço e recebe primeira resposta de satélite
Tecnologia

Google consegue executar inteligência artificial no espaço e recebe primeira resposta de satélite

By Kayobrussy Guedes6 Mins Read
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Projeto Suncatcher colocou processadores TPU em órbita e executou o modelo Gemma 4. Experimento abre caminho para data centers espaciais, mas desafios de energia, refrigeração e custos ainda estão longe de ser resolvidos.

O Google conseguiu executar um modelo de inteligência artificial diretamente no espaço e receber sua primeira resposta gerada em órbita. O feito faz parte do Project Suncatcher, iniciativa experimental que investiga a possibilidade de construir data centers espaciais alimentados por energia solar.

O primeiro satélite do projeto foi lançado em 1º de outubro de 2026, durante a missão Transporter-18, da SpaceX. Desenvolvido em parceria com a empresa Planet, o equipamento passou pelas primeiras etapas de inicialização e verificação dos sistemas antes de realizar seu primeiro teste completo de inteligência artificial.

O resultado foi anunciado pelo Google em 30 de outubro. Durante uma passagem sobre a região de Svalbard, na Noruega, engenheiros enviaram um comando ao satélite e solicitaram que o modelo Gemma 4 produzisse um haicai sobre estar no espaço. O texto foi gerado pelo equipamento em órbita e transmitido de volta à Terra.

O poema apresentado pela empresa foi:

Blue marble below
Data streams in silent grace
Starlight feeds my core.

A equipe também realizou testes com outros comandos, incluindo limeriques sobre o espaço e solicitações de informações técnicas sobre o funcionamento do próprio satélite.

Embora escrever um poema não seja exatamente uma demonstração impressionante da capacidade intelectual de uma máquina, o resultado tem importância técnica: comprova que um processador de inteligência artificial desenvolvido para infraestrutura de data centers conseguiu executar uma inferência em órbita e transmitir a resposta para uma estação terrestre.

Satélite utiliza processadores TPU do Google

O protótipo utiliza unidades de processamento tensorial (TPUs), desenvolvidas pelo próprio Google para acelerar operações de inteligência artificial.

Segundo informações publicadas pela Data Center Dynamics, o equipamento transporta quatro processadores TPU e dispõe de aproximadamente 1 kW de capacidade de geração elétrica por meio de painéis solares.

A arquitetura foi concebida para investigar como esse tipo de hardware se comporta fora da proteção oferecida pela atmosfera terrestre. Diferentemente dos data centers convencionais, os equipamentos espaciais precisam funcionar em condições extremas de temperatura, exposição à radiação e limitações de energia.

O projeto também pretende demonstrar que processadores de IA podem trabalhar em conjunto mesmo quando instalados em diferentes satélites.

Energia solar é uma das principais vantagens

Um dos argumentos do Google para investigar data centers em órbita é a disponibilidade de energia solar.

Em determinadas órbitas baixas, os satélites podem receber luz solar durante períodos muito maiores do que painéis instalados na superfície terrestre. Segundo estimativas apresentadas pela empresa, instalações espaciais em condições favoráveis poderiam gerar até oito vezes mais energia solar do que sistemas equivalentes na Terra.

Isso poderia representar uma alternativa para atender à crescente demanda energética da inteligência artificial, especialmente diante das dificuldades enfrentadas por empresas de tecnologia para ampliar a capacidade elétrica de seus data centers.

Entretanto, captar energia solar no espaço não significa que seja possível utilizá-la sem limitações. Painéis, baterias, circuitos de alimentação e sistemas de gerenciamento precisam ser dimensionados para suportar as condições orbitais.

Além disso, o equipamento precisa manter sua temperatura dentro dos limites operacionais.

Refrigeração e radiação continuam sendo obstáculos

Um dos maiores desafios para construir data centers espaciais está na dissipação de calor.

Na Terra, servidores utilizam ventiladores, sistemas de refrigeração líquida e grandes instalações de climatização para remover o calor produzido pelos processadores. No espaço, porém, não existe atmosfera ao redor do equipamento para permitir a transferência de calor por convecção.

Isso obriga os engenheiros a utilizar soluções diferentes, principalmente tubos de calor (heat pipes) e radiadores capazes de liberar energia térmica por radiação.

O Google já realizou testes desses sistemas em câmaras de vácuo térmico, que reproduzem condições semelhantes às encontradas no ambiente espacial. Agora, a empresa pretende avaliar o comportamento da solução durante a operação real em órbita.

A radiação também representa um risco importante. Partículas de alta energia podem provocar alterações em dados armazenados na memória, erros de processamento e danos permanentes aos componentes eletrônicos.

Antes do lançamento, o Google submeteu seus processadores Trillium a testes com feixes de prótons no Crocker Nuclear Laboratory, da Universidade da Califórnia em Davis.

Segundo a empresa, os resultados iniciais indicaram resistência a uma dose total de radiação ionizante superior à estimada para uma missão orbital de cinco anos. Entretanto, testes em laboratório não substituem a avaliação prolongada em condições reais de operação espacial.

Google pretende conectar satélites com comunicação a laser

O próximo passo do Project Suncatcher é testar a comunicação entre diferentes satélites.

A proposta é criar uma infraestrutura distribuída, na qual vários equipamentos compartilhem capacidade de processamento para executar tarefas maiores de inteligência artificial.

Para isso, o Google pretende utilizar conexões ópticas a laser de alta velocidade. A tecnologia permitiria transferir grandes volumes de dados entre satélites sem depender exclusivamente de estações terrestres para cada operação.

O desafio está na precisão necessária para manter essas conexões. Os equipamentos estarão em movimento constante, e os sistemas ópticos precisarão acompanhar suas posições para manter os feixes alinhados.

A empresa pretende avançar nessa etapa em 2027, quando planeja testar dois satélites interconectados. O experimento deverá avaliar se os equipamentos conseguem manter comunicação estável e distribuir tarefas de processamento entre si.

Data centers espaciais ainda são muito caros

Apesar do avanço técnico, transformar o Project Suncatcher em uma infraestrutura comercial é uma questão muito mais complicada.

O lançamento de satélites, a instalação de painéis solares, os sistemas de refrigeração, os equipamentos de comunicação e a necessidade de substituir componentes defeituosos representam custos elevados.

De acordo com reportagem da Data Center Dynamics publicada em 2 de novembro, Amanda Peterson Corio, responsável global pela área de energia e potência do Google, afirmou que data centers espaciais podem custar até 100 vezes mais do que instalações terrestres atualmente.

A executiva também ressaltou que a empresa precisa explorar as alternativas disponíveis na Terra antes de apostar em uma infraestrutura extraterrestre.

Outro problema é a manutenção. Enquanto um data center convencional permite a substituição de servidores, fontes e módulos de memória por equipes técnicas, um equipamento em órbita exige operações espaciais muito mais complexas e caras.

O próprio Google já reconheceu, em suas pesquisas sobre o projeto, que a redução significativa dos custos de lançamento será fundamental para tornar a proposta economicamente interessante.

Projeto ainda está em fase experimental

O primeiro resultado do Project Suncatcher representa uma demonstração importante de que processadores TPU conseguem executar modelos de inteligência artificial em órbita. Entretanto, ainda não existe um data center espacial comercial do Google, nem evidências de que a tecnologia consiga competir economicamente com instalações terrestres.

Os próximos experimentos deverão esclarecer questões fundamentais sobre resistência à radiação, controle térmico, disponibilidade de energia e comunicação entre satélites.

Se os testes previstos para 2027 forem bem-sucedidos, o Google terá avançado mais uma etapa em sua tentativa de transformar a órbita terrestre em uma extensão da infraestrutura global de computação.

Por enquanto, a inteligência artificial já conseguiu escrever seu primeiro poema no espaço. Fazer com que ela trabalhe continuamente, com eficiência e custos competitivos, será um desafio consideravelmente maior.

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