Coalizão ambientalista pede moratória temporária para grandes instalações de processamento de dados de IA e alerta para impactos sobre energia, água, meio ambiente e comunidades locais. Mobilizações acontecem em diferentes países nos dias 6 e 7 de novembro.
A expansão acelerada dos data centers voltados à inteligência artificial está provocando uma onda de resistência na Europa. Mais de 100 organizações e movimentos sociais se uniram à campanha Stop Dirty Data Centres para pressionar governos a suspender temporariamente a aprovação de novos empreendimentos de grande escala até que seus impactos ambientais, econômicos e sociais sejam devidamente avaliados.
A mobilização está programada para os dias 6 e 7 de novembro de 2026 e reúne entidades ambientais, organizações de defesa dos direitos digitais e grupos comunitários. Entre os países envolvidos estão Reino Unido, Irlanda, Polônia, Dinamarca, Finlândia, Espanha, Países Baixos e França, além de outras nações europeias.
A iniciativa não pretende impedir permanentemente a construção de data centers nem exigir o fechamento das instalações existentes. O objetivo é estabelecer uma pausa nas novas construções de grande porte para que autoridades desenvolvam regras mais rigorosas de planejamento, licenciamento ambiental e fiscalização.
Consumo de energia e água está no centro das críticas
O principal argumento dos manifestantes é que a infraestrutura necessária para sustentar o crescimento da inteligência artificial exige recursos naturais em uma escala que pode comprometer comunidades próximas aos empreendimentos.
Data centers de grande porte precisam de fornecimento constante de eletricidade para manter milhares de servidores em funcionamento. Além disso, dependendo da tecnologia de refrigeração utilizada, podem consumir quantidades significativas de água para controlar a temperatura dos equipamentos.
Os impactos também vão além do consumo de recursos. Os organizadores apontam preocupações com ocupação de terrenos, perda de áreas verdes, poluição sonora, emissões de carbono, descarte de equipamentos eletrônicos e pressão sobre a infraestrutura elétrica local.
Outro ponto levantado pela coalizão envolve os benefícios econômicos prometidos pelos desenvolvedores. Os ativistas questionam se os empregos e investimentos gerados pelos empreendimentos compensam os custos ambientais e a pressão sobre os serviços públicos.
A campanha também demonstra preocupação com a concentração de infraestrutura digital nas mãos de grandes empresas de tecnologia, que passam a exercer influência crescente sobre serviços essenciais e o desenvolvimento da inteligência artificial.
Protestos já provocaram tensão em instalações de tecnologia
A mobilização europeia ganhou destaque internacional nesta sexta-feira (6). Em Amsterdã, nos Países Baixos, mais de 100 ativistas participaram de um protesto em um canteiro de obras de um data center da Microsoft.
Segundo a Reuters, manifestantes entraram na área da construção, subiram em guindastes e realizaram atos de protesto no local. A mobilização faz parte de uma série de ações coordenadas pela campanha Stop Dirty Data Centres.
A empresa Pure Data Centres, responsável pelo empreendimento, pediu que os manifestantes deixassem o local em segurança e afirmou estar aberta ao diálogo com as comunidades afetadas.
A Microsoft, por sua vez, declarou respeitar o direito de manifestação pacífica, mas afirmou não apoiar ações ilegais.
Outras mobilizações estão previstas em cidades como Dublin, na Irlanda, e Varsóvia, na Polônia, além de manifestações na Dinamarca e em diferentes localidades europeias.
Governo britânico quer ampliar capacidade de processamento de IA
Enquanto movimentos ambientais pressionam por uma interrupção temporária dos novos projetos, o Reino Unido segue uma estratégia de expansão da infraestrutura de inteligência artificial.
Em 28 de outubro, o governo britânico publicou o chamado Data Centre Covenant, documento que estabelece compromissos esperados dos operadores de data centers e apresenta medidas para facilitar o desenvolvimento de instalações consideradas estratégicas.
A estimativa oficial é que o país precise alcançar 6 gigawatts (GW) de capacidade de data centers preparados para inteligência artificial até 2030.
O documento estabelece cinco áreas de compromisso: redução dos impactos sobre as contas de energia, investimentos nas comunidades locais, padrões ambientais elevados, geração de empregos e fortalecimento da segurança nacional.
O governo também pretende facilitar conexões à rede elétrica e acelerar processos de planejamento para projetos considerados importantes para os interesses estratégicos do país.
A iniciativa evidencia o desafio enfrentado pelas autoridades europeias: ampliar a capacidade computacional necessária para competir no mercado global de inteligência artificial sem transferir os custos dessa expansão para a população e o meio ambiente.
Movimento europeu acompanha resistência observada nos Estados Unidos
A oposição à construção de grandes data centers não é exclusiva da Europa. Nos Estados Unidos, comunidades e representantes políticos também vêm pressionando por regras mais rigorosas para empreendimentos de infraestrutura voltados à inteligência artificial.
Em julho de 2026, a governadora de Nova York, Kathy Hochul, anunciou uma moratória estadual de um ano para novas instalações hyperscale, enquanto o estado desenvolve um conjunto de critérios ambientais e regulatórios para esse tipo de empreendimento.
A medida demonstra que a discussão sobre os limites da expansão dos data centers já chegou ao campo das políticas públicas.
Para os integrantes da Stop Dirty Data Centres, o crescimento da inteligência artificial não deve acontecer sem transparência e participação das comunidades afetadas. A coalizão defende que governos avaliem primeiro quais instalações são realmente necessárias, onde devem ser construídas e quais exigências ambientais precisam cumprir.
O debate deve ganhar ainda mais importância nos próximos anos. Com empresas de tecnologia investindo bilhões de dólares em infraestrutura computacional, a disputa não envolve apenas quem terá acesso aos modelos mais avançados de IA, mas também quem arcará com os custos de energia, água e espaço necessários para mantê-los funcionando.




