Samsung encerra fabricação de chips de 8 polegadas e decisão pode pressionar fabricantes de semicondutores, reduzir a oferta de componentes tradicionais e dificultar a produção de chips usados em telas, sistemas de gerenciamento de energia e sensores.
A Samsung Electronics planeja encerrar completamente suas operações de fabricação de semicondutores em wafers de 8 polegadas até o final de 2030. A medida representa uma mudança importante na estratégia da companhia e pode provocar dificuldades para fabricantes de chips que dependem dessas linhas de produção para atender ao mercado de componentes eletrônicos.
A informação foi divulgada pelo veículo sul-coreano The Elec, que afirma ter apurado que a Samsung já comunicou seus clientes sobre o cronograma de encerramento. Até o momento, a empresa não publicou uma confirmação oficial detalhando o prazo definitivo.
A decisão amplia um plano de redução que já estava em andamento. Inicialmente, a Samsung pretendia fechar a unidade S7, localizada em Giheung, até o final de 2026, mantendo as fábricas S6 e S8 em funcionamento. Agora, segundo a reportagem, a intenção é descontinuar todas as linhas de fabricação de 8 polegadas.
A empresa também deixou de aceitar novos pedidos para produtos fabricados nesse formato em 2026, antecipando a transição de sua capacidade industrial.
Samsung quer concentrar investimentos em tecnologias mais avançadas
A mudança está relacionada à estratégia de concentrar recursos humanos, equipamentos e investimentos em processos de fabricação mais avançados, especialmente aqueles que utilizam wafers de 12 polegadas.
A diferença entre os dois formatos vai além do tamanho. Wafers maiores permitem produzir mais circuitos integrados por unidade de fabricação, contribuindo para melhorar a eficiência econômica de determinadas tecnologias.
As linhas de 8 polegadas, equivalentes a aproximadamente 200 milímetros, continuam relevantes para a fabricação de semicondutores com processos de 65 nm, 90 nm, 130 nm e 180 nm, entre outros.
Esses componentes estão presentes em produtos de uso cotidiano, incluindo controladores de telas, circuitos de gerenciamento de energia, microcontroladores e sensores de imagem.
Embora não utilizem as tecnologias mais avançadas da indústria, esses chips continuam essenciais para televisores, smartphones, equipamentos industriais, automóveis e diversos dispositivos eletrônicos.
Fabricantes sul-coreanas terão dificuldades para encontrar alternativas
O encerramento das fábricas pode afetar diretamente empresas que utilizam a capacidade produtiva da Samsung.
Entre os clientes mencionados pelo The Elec estão Imagis, ABOV Semiconductor, Dongwoon Anatech, Silicon Mitus e LX Semicon.
Essas fabricantes precisarão encontrar outras fundições capazes de produzir seus componentes ou adaptar seus projetos a processos industriais diferentes.
O problema é que as alternativas disponíveis na Coreia do Sul já enfrentam limitações de capacidade.
A DB HiTek e a SK Keyfoundry são duas das principais empresas sul-coreanas que trabalham com fabricação de semicondutores em wafers de 8 polegadas. Entretanto, segundo as informações divulgadas, boa parte de sua capacidade produtiva já está comprometida com contratos existentes.
Isso significa que absorver os pedidos transferidos pela Samsung pode ser difícil, obrigando algumas fabricantes a procurar fornecedores em outros países.
Migrar para processos mais modernos pode encarecer os chips
Uma possível solução seria transferir a produção para fábricas que utilizam wafers de 12 polegadas. Entretanto, essa mudança não significa simplesmente fabricar o mesmo chip em uma linha mais moderna.
Muitos componentes desenvolvidos para processos de 90 nm a 180 nm possuem características elétricas específicas, determinadas pelo projeto original e pelas particularidades do processo de fabricação.
No caso dos semicondutores analógicos e de gerenciamento de energia, a situação é ainda mais complexa. Esses dispositivos podem exigir processos especializados para suportar tensões elétricas elevadas e condições específicas de operação.
Uma migração pode exigir alterações no projeto eletrônico, novos testes, validações de desempenho e processos de qualificação antes que a produção comercial seja retomada.
Além do investimento técnico, existe o risco de aumento dos custos de fabricação. Um processo mais avançado nem sempre representa uma alternativa economicamente interessante para componentes que não precisam de transistores menores.
Taiwan e China também apresentam limitações
Procurar fabricantes fora da Coreia do Sul não resolve automaticamente o problema.
O mercado taiwanês também apresenta limitações de capacidade disponível para produção em wafers de 8 polegadas. A China poderia representar outra alternativa industrial, mas algumas fabricantes enfrentam restrições contratuais impostas por seus clientes, que não permitem a utilização de semicondutores produzidos em território chinês.
Com isso, empresas que dependem das linhas da Samsung podem enfrentar uma disputa por capacidade produtiva em um segmento que continua importante para a indústria eletrônica.
Empresas podem antecipar estoques para evitar interrupções
Diante da incerteza, algumas fabricantes já estariam considerando reservar antecipadamente volumes adicionais de produção nas linhas da Samsung.
A estratégia permitiria formar estoques para manter o fornecimento enquanto os projetos são transferidos para outros fornecedores.
Entretanto, essa solução apresenta custos consideráveis. Comprar componentes antecipadamente exige capital de giro, aumenta as despesas de armazenamento e não elimina a necessidade de encontrar uma nova fábrica para a produção de longo prazo.
Representantes do setor também defendem que a Samsung considere adiar o encerramento das linhas. Há ainda pedidos de participação do governo sul-coreano nas negociações, já que fabricantes menores possuem pouco poder de negociação diante de uma decisão dessa dimensão.
Uma mudança que vai além da Samsung
A possível saída da Samsung do mercado de fabricação em wafers de 8 polegadas evidencia uma transformação na indústria de semicondutores.
O crescimento da demanda por chips avançados, especialmente aqueles destinados à inteligência artificial e à computação de alto desempenho, aumenta a importância dos investimentos em tecnologias mais modernas.
Entretanto, a indústria não depende exclusivamente dos processadores mais sofisticados. Componentes fabricados em processos tradicionais continuam indispensáveis para uma enorme variedade de equipamentos.
Se o cronograma divulgado pelo The Elec for mantido, os próximos quatro anos serão decisivos para as fabricantes que dependem das linhas sul-coreanas.
O desafio não será apenas encontrar outra fábrica, mas garantir que os novos fornecedores consigam reproduzir as características elétricas, os custos e a confiabilidade dos componentes atuais sem interromper o abastecimento do mercado.




