Escolher um roteador hoje não é tão simples quanto olhar para a maior velocidade escrita na caixa. O mercado oferece uma quantidade enorme de modelos, com diferentes padrões de Wi-Fi, número de antenas, bandas, portas de rede e recursos. E, dependendo do que você pretende fazer, algumas dessas características podem fazer bastante diferença.
Antes de comprar, portanto, vale pensar primeiro no que você realmente precisa. Uma pessoa que mora em um apartamento pequeno e tem uma conexão de 300 Mbps provavelmente não precisa do mesmo equipamento que alguém que tem uma casa grande, dezenas de dispositivos conectados e uma conexão de Internet de 2 Gbps.
Por que alguns roteadores são tão mais caros que outros?
A diferença de preço entre dois roteadores pode ser grande, mesmo quando os equipamentos parecem semelhantes à primeira vista. Isso acontece porque existem vários fatores envolvidos.
Um dos principais é a geração do Wi-Fi. Atualmente encontramos principalmente equipamentos Wi-Fi 5, Wi-Fi 6, Wi-Fi 6E e Wi-Fi 7. Quanto mais recente o padrão, maior tende a ser a quantidade de recursos disponíveis, embora isso não signifique que o modelo mais novo seja sempre a melhor compra.
A quantidade de bandas também influencia. Um roteador pode trabalhar apenas nas faixas de 2,4 e 5 GHz, enquanto modelos Wi-Fi 6E e Wi-Fi 7 podem também trabalhar em 6 GHz, desde que essa faixa seja permitida e que os dispositivos conectados sejam compatíveis.
Outro ponto que costuma passar despercebido são as portas Ethernet. Um roteador com portas Gigabit pode ser perfeitamente adequado para uma conexão de até 1 Gbps. Já quem possui Internet acima disso pode precisar de portas de 2,5, 5 ou até 10 Gbps.
Também entram na conta o processador do equipamento, a quantidade de dispositivos que ele consegue atender simultaneamente, os recursos de segurança, suporte a VPN, QoS, VLAN, controles parentais, redes para convidados e a qualidade do firmware.
E, claro, existe a marca. Fabricantes com boa reputação e histórico de atualizações normalmente conseguem cobrar mais por seus equipamentos. Promoções também podem alterar bastante o preço de um modelo de uma semana para outra.
Por isso, não vale a pena escolher um roteador apenas pelo preço ou pela velocidade anunciada.
Wi-Fi 4, 5, 6, 6E e 7: qual é a diferença?
Para facilitar a identificação das diferentes gerações, a Wi-Fi Alliance passou a utilizar nomes como Wi-Fi 4, Wi-Fi 5, Wi-Fi 6 e Wi-Fi 7.
De forma resumida:
- Wi-Fi 4 (802.11n): é uma geração mais antiga, mas ainda encontrada em equipamentos domésticos.
- Wi-Fi 5 (802.11ac): trouxe um salto importante de desempenho, principalmente na faixa de 5 GHz.
- Wi-Fi 6 (802.11ax): além de aumentar o desempenho, foi projetado para trabalhar melhor em ambientes com muitos dispositivos conectados.
- Wi-Fi 6E: é uma extensão do Wi-Fi 6 que permite utilizar também a faixa de 6 GHz.
- Wi-Fi 7 (802.11be): é a geração mais recente e traz recursos como Multi-Link Operation (MLO), canais de até 320 MHz e outras melhorias voltadas principalmente para capacidade, velocidade e latência.
Uma coisa importante é que a evolução do Wi-Fi não se resume a aumentar a velocidade máxima. Em uma casa cheia de celulares, TVs, câmeras, computadores e dispositivos de automação, a capacidade de lidar bem com vários aparelhos ao mesmo tempo pode ser mais importante do que simplesmente alcançar uma velocidade enorme em um único dispositivo.
Não confunda a velocidade anunciada com a velocidade real
Esse é provavelmente um dos pontos que mais confundem quem está comprando um roteador.
É comum encontrar produtos anunciados como AX1800, AX3000, AX5400, BE3600 ou BE9300. Esses números podem parecer a velocidade que o usuário terá disponível, mas não é isso que eles significam.
Essas classificações normalmente representam a soma das taxas teóricas dos diferentes rádios do equipamento. Portanto, um roteador anunciado como “9300 Mbps” não significa que um único celular conseguirá baixar arquivos a 9,3 Gbps.
A velocidade efetiva depende de uma série de fatores: capacidade do dispositivo conectado, número de antenas, largura do canal, qualidade do sinal, distância, interferência, obstáculos e até mesmo da quantidade de dispositivos utilizando a rede naquele momento.
O próprio dispositivo também pode ser o limite. Não adianta comprar um roteador Wi-Fi 7 se o seu notebook ou celular só suporta Wi-Fi 5. Ele continuará se conectando usando o padrão que é compatível com os dois lados.
Internet rápida não significa necessariamente Wi-Fi rápido
Também é importante separar a velocidade da Internet da velocidade da rede doméstica.
Imagine uma residência com uma conexão de fibra de 1 Gbps. Se o roteador tiver uma porta WAN de apenas 100 Mbps, o equipamento será o gargalo. Mesmo que o Wi-Fi seja capaz de trabalhar em velocidades muito maiores, a conexão com a Internet ficará limitada.
Agora imagine o contrário: o roteador tem uma porta de 2,5 Gbps e Wi-Fi 7, mas o usuário contratou uma conexão de apenas 300 Mbps. Nesse caso, não haverá como obter mais de 300 Mbps de Internet simplesmente porque o roteador é mais rápido.
Mas existe ainda outro detalhe: a velocidade da Internet não determina a velocidade de toda a rede.
Se você copiar um arquivo de um computador para um NAS dentro da sua casa, por exemplo, os dados podem trafegar apenas pela rede local. Nesse caso, a velocidade contratada do provedor praticamente não importa.
É por isso que, ao avaliar um roteador, é melhor pensar em três coisas diferentes: velocidade da conexão com a Internet, velocidade da ligação entre o dispositivo e o roteador e velocidade real de transferência.
Cobertura: um roteador mais potente nem sempre resolve
Quando o assunto é cobertura, muita gente procura simplesmente o roteador com maior potência. Só que a questão não é tão simples.
O sinal Wi-Fi precisa atravessar paredes, portas, móveis e, em alguns casos, lajes e estruturas de concreto. A distância também conta, assim como a quantidade de outras redes próximas utilizando os mesmos canais.
A frequência utilizada também faz diferença. A faixa de 2,4 GHz normalmente consegue alcançar distâncias maiores e atravessar obstáculos melhor. Já 5 GHz e 6 GHz podem oferecer mais capacidade, mas sofrem mais com a distância e com obstáculos.
Por isso, a posição do roteador é muito importante. Um equipamento colocado em um ponto central, elevado e relativamente livre de obstáculos geralmente terá um resultado melhor do que o mesmo equipamento escondido dentro de um armário.
Também não adianta simplesmente aumentar a potência do roteador. A comunicação Wi-Fi acontece nos dois sentidos. O roteador pode conseguir transmitir até um celular que está a uma distância considerável, mas o celular precisa conseguir transmitir de volta.
E quando um roteador não é suficiente?
Em uma casa pequena, um único roteador costuma resolver. Em uma residência grande, com vários quartos, dois ou três andares ou paredes muito espessas, pode ser necessário distribuir mais pontos de acesso.
Uma das melhores opções atualmente é utilizar um sistema mesh. Nesse tipo de sistema, vários equipamentos trabalham juntos para formar uma única rede Wi-Fi, permitindo que os dispositivos mudem de um ponto de acesso para outro de maneira mais transparente.
Quando existe cabeamento de rede disponível, uma opção ainda melhor pode ser conectar os pontos de acesso por Ethernet. Dessa forma, os equipamentos não precisam depender do próprio Wi-Fi para conversar entre si.
Também existem os repetidores Wi-Fi, que podem ser úteis em determinadas situações. Eles são simples de instalar, mas têm algumas limitações. Dependendo do modelo e da forma como trabalham, parte da capacidade do Wi-Fi pode ser utilizada para receber e retransmitir os dados.
Por isso, não é correto colocar um repetidor, um sistema mesh e um ponto de acesso cabeado exatamente no mesmo nível. Cada solução tem suas vantagens e limitações.
Preciso de dois roteadores?
Nem sempre. Quando uma casa precisa de mais cobertura, geralmente o que se procura é mais de um ponto de acesso, e não necessariamente dois roteadores independentes.
É possível, por exemplo, ter um roteador principal e outro equipamento funcionando apenas como Access Point. Também é possível utilizar vários pontos de acesso em uma rede mesh.
Colocar dois roteadores trabalhando como roteadores independentes pode criar problemas como duplo NAT, duas redes diferentes e dificuldades para alguns dispositivos se comunicarem entre si.
Se a intenção é apenas ampliar a cobertura, normalmente é melhor utilizar um sistema mesh ou configurar o segundo equipamento como ponto de acesso, quando essa função estiver disponível.
Facilidade de configuração
Hoje praticamente todos os fabricantes tentam tornar a instalação mais simples.
Alguns roteadores podem ser configurados pelo navegador, acessando a interface do equipamento pela rede local. Outros também oferecem aplicativos para Android e iPhone que orientam o usuário durante a instalação.
Uma coisa não significa necessariamente que o equipamento seja mais moderno que o outro.
Um roteador profissional pode continuar utilizando uma interface web porque ela oferece muito mais opções de configuração. Ao mesmo tempo, um equipamento doméstico pode oferecer um aplicativo extremamente simples, permitindo configurar a rede em poucos minutos.
Alguns modelos também oferecem gerenciamento remoto pela Internet. Nesse caso, é importante verificar como o fabricante trata a segurança e os dados associados ao serviço de nuvem.
Segurança também deve entrar na escolha
Um roteador não deve ser avaliado apenas pela velocidade.
O firmware é uma parte importante do equipamento e, com o passar do tempo, vulnerabilidades podem ser descobertas. Por isso, é interessante escolher fabricantes que tenham um histórico razoável de atualizações e suporte.
Recursos como WPA3, firewall, rede para convidados, isolamento de dispositivos, VPN e controles de acesso também podem ser importantes, dependendo do uso.
Para uma residência com câmeras, dispositivos de automação e muitos equipamentos conectados, esses recursos podem fazer uma diferença considerável.
E as portas Ethernet?
Mesmo sendo chamado de roteador Wi-Fi, o equipamento normalmente também possui conexões de rede por cabo.
A velocidade dessas portas merece atenção.
Os modelos mais antigos podem ter portas Fast Ethernet, limitadas a 100 Mbps. Hoje, o mais comum é encontrar Gigabit Ethernet, com capacidade de até 1 Gbps. Em equipamentos mais modernos, começam a aparecer portas de 2,5 Gbps, 5 Gbps e 10 Gbps.
Isso é especialmente importante para quem possui Internet acima de 1 Gbps.
Não faz muito sentido comprar um roteador com Wi-Fi extremamente rápido e depois descobrir que a porta WAN utilizada para receber a Internet está limitada a 1 Gbps.
As portas LAN também precisam ser observadas se você pretende conectar computadores, servidores, NAS ou outros equipamentos por cabo.
E não existe um limite de quatro ou cinco dispositivos por causa das portas do roteador. Se forem necessárias mais conexões cabeadas, basta adicionar um switch Ethernet.
E se eu tiver duas conexões de Internet?
Algumas pessoas utilizam duas conexões de Internet, principalmente quando precisam de maior disponibilidade.
Nesse caso, pode ser interessante utilizar um roteador com suporte a dual-WAN.
Dependendo do equipamento, ele pode utilizar uma segunda conexão para backup caso o primeiro provedor fique indisponível ou distribuir determinados tipos de tráfego entre os dois links.
Isso é diferente de simplesmente instalar dois roteadores.
Quantos dispositivos um roteador suporta?
Atualmente, uma residência pode ter muito mais dispositivos conectados do que tinha alguns anos atrás.
Além de computadores e celulares, temos televisores, consoles, câmeras, impressoras, relógios, lâmpadas, tomadas, sensores e diversos outros equipamentos de automação.
Mas o número de dispositivos, sozinho, não diz se um roteador dará conta da rede.
Dez câmeras transmitindo vídeo continuamente podem exigir muito mais da rede do que cinquenta lâmpadas inteligentes que praticamente só enviam pequenos pacotes de dados de vez em quando.
Por isso, além da quantidade de clientes suportados pelo equipamento, é importante considerar o tipo de tráfego que eles geram.
Wi-Fi 6, 6E ou 7: qual comprar?
Para a maioria das residências, um bom roteador Wi-Fi 6 ainda pode oferecer excelente desempenho.
O Wi-Fi 6 é especialmente interessante para casas com muitos dispositivos, pois foi desenvolvido pensando também na eficiência da rede em ambientes congestionados.
O Wi-Fi 6E pode ser interessante para quem possui dispositivos compatíveis com 6 GHz e quer aproveitar uma faixa adicional de espectro.
Já o Wi-Fi 7 é mais interessante para quem possui equipamentos compatíveis, conexões de Internet muito rápidas ou pretende montar uma rede doméstica de alto desempenho.
Não existe, porém, uma regra dizendo que todo mundo precisa comprar Wi-Fi 7. Se os seus dispositivos são antigos e a sua conexão de Internet é relativamente modesta, gastar muito mais em um roteador de última geração provavelmente não trará um benefício proporcional.
Afinal, qual é o melhor roteador?
A resposta depende da rede que você pretende montar.
Para uma casa pequena e uma conexão comum, um bom Wi-Fi 6 pode ser mais do que suficiente. Em uma casa grande, é mais importante pensar na cobertura e talvez utilizar vários pontos de acesso ou um sistema mesh.
Para conexões acima de 1 Gbps, é necessário prestar atenção às portas Ethernet, principalmente à porta WAN. Para os que possuem muitos dispositivos, vale procurar um equipamento com boa capacidade de atender vários clientes simultaneamente.
E para quem pretende aproveitar as tecnologias mais recentes, Wi-Fi 7 oferece recursos interessantes, principalmente quando combinado com dispositivos compatíveis.
No fim das contas, comprar um roteador não deveria ser uma disputa pelo maior número escrito na caixa.
O melhor equipamento é aquele que consegue atender a sua conexão de Internet, cobrir adequadamente a sua casa, trabalhar bem com a quantidade de dispositivos que você possui, oferecer os recursos de que realmente precisa e continuar recebendo atualizações por um bom tempo.
Em outras palavras, não compre apenas velocidade. Compre uma rede adequada às suas necessidades.




